Cresci ouvindo e consumindo a ideia de que os Estados Unidos eram a terra absoluta da oportunidade, o lugar onde qualquer pessoa, com um pouco de suor, virava o jogo e vencia na vida. Confesso que eu mesmo comprava essa narrativa sem grandes questionamentos. Afinal, a cultura pop, os filmes e o marketing global repetem isso à exaustão. Só que, conforme fui avançando na faculdade, lendo dados reais e estudando economia política, percebi que a realidade lá fora é bem diferente do que passa na tela de cinema.
É verdade que os impostos sobre a renda parecem menores do que os nossos. Mas essa suposta vantagem fiscal evapora rapidinho quando você olha para o custo de vida real de um trabalhador médio. Saúde privada caríssima, aluguéis absurdos, o peso da dívida estudantil e o preço da alimentação comem a renda das famílias de um jeito assustador. A verdade é que o custo para sobreviver nos EUA é altíssimo, e a rede de proteção social é frágil.
Isso escancara uma desigualdade brutal, principalmente na questão imobiliária e na moradia. Enquanto uma elite acumula fortunas impensáveis, milhões de pessoas vivem de paycheck em paycheck, muitas vezes presas em crises de habitação crônicas que empurram famílias inteiras para ruas ou carros. Isso destrói o mito da meritocracia pura, porque o ponto de partida das pessoas lá é radicalmente desigual. É justamente em cima dessa frustração real que cresce o discurso populista de figuras como Donald Trump, que repete sem parar que os EUA são o "melhor país do mundo" enquanto joga a culpa dos problemas internos nos outros.
Mas se a gente tira o verniz de Hollywood e olha para a história americana sem romantismo, a coisa fica ainda mais pesada. A supremacia deles não nasceu de um passe de mágica meritocrático, mas sim de uma trajetória historicamente intervencionista, violenta e baseada na exploração de outras nações, inclusive na América Latina. Quando vemos hoje o nacionalismo extremista do movimento trumpista, fica uma pulga atrás da orelha: para onde eles estão levando esse país? O protecionismo cego, a xenofobia institucional e o ataque às regras democráticas lembram caminhos perigosos que a história já viu no século passado.
Agora, trazendo o foco para o nosso quintal: por que insistimos em copiar modelos falidos em vez de olhar para as nossas próprias vantagens? É claro que o Brasil tem problemas graves, como um sistema tributário injusto que pesa demais no consumo. Mas, em compensação, nós temos conquistas que os americanos dariam tudo para ter de forma universal e gratuita, como o SUS e uma rede pública de ensino e assistência que, mesmo com todos os cortes e dificuldades de gestão, acolhem e salvam milhões de brasileiros todos os dias.
A grande sacada de uma centro-esquerda pragmática não é abraçar dogmas cegos, mas usar a inteligência fiscal para corrigir nossas distorções sem destruir a nossa rede de proteção. E mais do que isso: precisamos falar de soberania de verdade. Não dá para o Brasil continuar sendo um mero fazendão exportador de matéria-prima e dependente de tecnologia importada. Precisamos industrializar o país, investir pesado em ciência e inovação própria e proteger nossos recursos minerais estratégicos. Ser soberano significa parar de abaixar a cabeça para os ditames de Washington e garantir que o Brasil seja dono do próprio destino.